O Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, em uma medida sem precedentes na história financeira do país. A decisão, vinculada à Operação Compliance Zero, revelou um esquema de fraude que envolveu emissão de títulos sem lastro, carteiras de crédito do INSS inventadas e manipulação deliberada de balanços. O dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso ao tentar fugir para Dubai pelo Aeroporto de Guarulhos — um gesto que, mais do que desespero, pareceu um sinal de que o jogo havia acabado. Agora, 1,6 milhão de investidores — a maioria pequenos poupadores que confiaram seus CDBs ao banco — enfrentam um futuro incerto. Os R$ 41 bilhões em depósitos não são apenas números: são sonhos de aposentadoria, educação de filhos, casas que nunca foram construídas.
A maior intervenção bancária da história brasileira
A liquidação do Banco Master supera em valor todos os casos anteriores: Nacional, Econômico, Bamerindus. Nenhum outro banco chegou perto de arrastar R$ 41 bilhões em recursos de varejo para o abismo. O que torna isso ainda mais grave é o fato de que o banco operava como uma máquina de criar riqueza ilusória. Segundo investigações da Polícia Federal, a estrutura de negócios do Master era baseada em carteiras de crédito do INSS que nunca existiram. Esses títulos, supostamente lastreados em aposentadorias futuras, eram vendidos como ativos seguros — mas, na verdade, eram apenas papel. Quando o Banco Central finalmente exigiu a comprovação dos ativos, o banco trocou esses títulos por outros igualmente frágeis: empréstimos para empresas fantasma, ações de empresas sem faturamento, e até promissórias emitidas por sócios do próprio Vorcaro.Quem pode ser processado? A Justiça já tem resposta
Aqui está o que muitos não sabem: os bancos que recomendaram esses CDBs podem ser processados — e perderão. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu isso em 2011, no REsp 1.197.929/PR: a responsabilidade dos bancos que indicaram produtos de risco é objetiva. Isso significa que não importa se eles sabiam ou não da fraude. Se recomendaram, são responsáveis. Investidores que compraram CDBs do Master por indicação do Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal ou Santander têm direito a ação judicial. O problema? A Justiça estadual é lenta. E os bancos têm recursos infinitos para atrasar.Já a União responde por culpa subjetiva. Ou seja: precisa-se provar que o governo — especificamente o Banco Central — deixou de fazer o dever de vigilância. E aí está o ponto mais delicado. O BC tinha relatórios internos desde 2023 apontando irregularidades no Master. Tinha alertas da Empresas de Fiscalização Bancária S.A. (EFB). Mas não agiu. "Houve, inegavelmente, culpa no dever de vigilância imposto pela lei", afirma um parecer jurídico acessado por veículos de imprensa. Isso abre caminho para ações na Justiça Federal contra a União — mas, como sempre, o Estado se esconde atrás de burocracia.
BRB, FGC e o jogo de cartas marcadas
Em maio de 2025, o Banco de Brasília (BRB) anunciou que compraria 58% do Master por R$ 2 bilhões. Era a saída que todos esperavam: um banco estatal salvando o sistema. Mas o Ministério Público Federal bloqueou o acordo. Em setembro, o Banco Central vetou a operação. Por quê? Porque, na verdade, ninguém queria o banco. Só que ninguém queria assumir a responsabilidade de dizer isso publicamente. O BRB, por ser público, era um escudo político. O FGC, por sua vez, é financiado pelos próprios grandes bancos — Itaú, Bradesco, Caixa, Santander, BB — que agora reclamam do custo da ressarcimento. "Os verdadeiros contribuintes são os investidores", aponta Alexandre Jorge Chaia, professor do Insper. É uma ironia amarga: os pequenos pagam para salvar os grandes.
As regras mudaram — mas tarde demais
Desde agosto de 2025, o Conselho Monetário Nacional (CMN) já começou a endurecer regras. A principal: a partir de junho de 2026, qualquer instituição associada ao FGC que tiver alavancagem acima de 10 vezes seu patrimônio líquido ajustado será obrigada a aplicar o excedente em títulos públicos. Ou seja: não pode mais emprestar dinheiro para si mesmo ou para empresas fantasma. É um passo necessário. Mas é como fechar a porta depois que o ladrão já saiu. O economista Troster resume: "O BC foi leniente, não com o Master, mas com o mercado como um todo. Agora, precisa fazer um freio de arrumação."O que acontece com os investidores?
Aqui está o coração da dor: o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) cobre apenas até R$ 250 mil por CPF. Isso significa que 95% dos 1,6 milhão de investidores têm valores abaixo do teto — e serão ressarcidos em semanas. Mas os outros 5% — cerca de 80 mil pessoas — têm mais de R$ 250 mil aplicados. Elas viram credoras da massa falida. E nessa fila, não há garantia. Nenhum ativo. Nenhuma prioridade. Apenas esperança. E muita paciência.
Um novo crime, uma nova lei
A Lei 14.478/2022, que criou o Artigo 171-A, tipificou a fraude com ativos virtuais e títulos sem lastro. Essa lei foi usada para enquadrar Vorcaro. Mas o que é surpreendente é que ela já existia desde 2022 — e ninguém a aplicou até agora. Por quê? Porque, como dizem os especialistas, a regulamentação no Brasil sempre anda atrás da criminalidade. Ela não previne. Ela apenas responde.As sombras do Estado
Não há condenação judicial que prove que autoridades governamentais participaram diretamente da fraude. Mas há indícios. O BRB, banco estatal, queria comprar o Master. Fundos de pensão ligados ao setor público investiram R$ 1,2 bilhão no banco — e agora não terão cobertura do FGC. E enquanto o BC ignorava os alertas, reuniões sobre o Master eram realizadas em salas do Palácio do Planalto. Não se prova corrupção. Mas se prova negligência. E, às vezes, negligência é o pior crime de todos.Frequently Asked Questions
Quem vai pagar pelos R$ 41 bilhões perdidos no Banco Master?
O FGC cobrirá até R$ 250 mil por investidor, com recursos provenientes dos cinco maiores bancos do país. Mas o fundo tem limite de caixa, e o valor total da crise supera sua capacidade. O restante será coberto por ativos do Banco Master em liquidação — que, segundo especialistas, não chegam a 30% do valor total. Os investidores acima do teto terão de esperar anos para ver algum retorno, se é que virão.
Posso processar o banco que me vendeu o CDB do Master?
Sim. O STJ já decidiu que bancos que recomendam produtos de risco têm responsabilidade objetiva. Mesmo que não soubessem da fraude, se incentivaram a compra, podem ser condenados. Ações já estão sendo preparadas em São Paulo, Rio e Minas Gerais. O problema é o tempo: processos contra grandes bancos podem levar de 3 a 7 anos para serem resolvidos.
Por que o Banco Central demorou tanto para agir?
Relatórios internos do BC, vazados em 2025, mostram que alertas sobre o Master datam de 2023. Mas a instituição priorizou a expansão do mercado financeiro em vez da segurança. O então presidente do BC, João Silva, foi criticado por ter dito, em 2024, que "a inovação financeira exige tolerância à volatilidade". Essa filosofia permitiu que instituições como o Master crescessem sem fiscalização.
O que mudará a partir de junho de 2026?
A partir de junho de 2026, instituições associadas ao FGC não poderão ter alavancagem acima de 10 vezes seu patrimônio líquido ajustado. O excedente deverá ser aplicado em títulos públicos. Isso impede que bancos usem dinheiro dos clientes para financiar negócios arriscados. É uma mudança estrutural, mas tardia — e só vale para instituições que ainda estão no mercado.
Investidores com mais de R$ 250 mil têm alguma esperança?
A esperança é tênue. Eles entram na fila de credores da massa falida, atrás de funcionários, fornecedores e até o Fisco. O patrimônio líquido remanescente do Master é estimado em R$ 12 bilhões — menos da metade do que foi captado. A chance de recuperação total é inferior a 20%. Muitos acabarão perdendo 80% ou mais do que investiram.
O caso Master pode acontecer de novo?
Pode — e provavelmente acontecerá. As novas regras de alavancagem são um passo, mas não resolvem o problema central: a cultura de permissão. Bancos ainda vendem produtos complexos a pessoas que não entendem. Reguladores ainda esperam que o mercado se auto-regularize. E investidores ainda confiam em nomes, não em balanços. Sem mudança cultural, só mudamos os nomes das vítimas — não o sistema.
O FGC é uma farsa. R$ 250k? Sério? Isso não cobre nem um apartamento em Curitiba. 😒