Uma rede de transferências financeiras que soma R$ 18 milhões colocou o filho de um dos magistrados mais influentes do país no centro de uma tempestade ética. Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) revelam que o Master Bank e a gigante do setor de carnes JBS enviaram quantias vultosas para a Consult Inteligência Tributária entre agosto de 2024 e julho de 2025. O detalhe que chama a atenção? A consultoria, por sua vez, repassou centenas de milhares de reais para Kevin de Carvalho Marques, advogado de 25 anos e filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kássio Nunes Marques.
Aqui está o ponto central da questão: a movimentação financeira não bate com a realidade declarada da empresa. Enquanto R$ 18 milhões entraram nos cofres da Consult, a firma declarou um faturamento de apenas R$ 25,5 mil no mesmo período. Na prática, isso significa que quase todo o dinheiro que a empresa recebeu veio dessas duas fontes específicas. Para os analistas do COAF, essa discrepância é um sinal vermelho clássico, classificando as transações como "incompatíveis com a capacidade financeira" da empresa, o que sugere que a firma pode ter servido apenas como um canal para a circulação de recursos.
O caminho do dinheiro: de gigantes corporativos ao escritório de advocacia
A engenharia financeira foi dividida entre duas frentes. O Master Bank, sob controle de Daniel Vorcaro, transferiu R$ 6,6 milhões. Já a JBS, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, injetou R$ 11,3 milhões na consultoria.
Mas o rastro não parou por aí. A análise de amostragem do órgão de controle identificou 11 transferências que totalizam R$ 281.630,00 enviadas diretamente para Kevin de Carvalho Marques. O dinheiro foi destinado ao seu escritório de advocacia, onde ele consta como proprietário único nos registros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). As transferências ocorreram ao longo de 2024 e 2025, criando um fluxo financeiro que liga grandes grupos econômicos ao núcleo familiar de um ministro da Suprema Corte.
A nebulosa Consult Inteligência Tributária e a conexão com o Piauí
A Consult Inteligência Tributária não é uma veterana do mercado; ela foi fundada em 2022 por Francisco Craveiro de Carvalho Junior. O fundador é um contador e empresário de Teresina, no Piauí — curiosamente, a mesma cidade natal do ministro Kássio Nunes Marques. Essa conexão geográfica adiciona uma camada de complexidade ao caso, sugerindo vínculos que vão além de simples contratos comerciais.
A movimentação societária da empresa também foi, no mínimo, peculiar. Em novembro de 2025, logo após a recepção dos milhões vindos do Master Bank e da JBS, Craveiro Junior deixou a empresa temporariamente. Ele transferiu sua participação para um irmão e negociou a retirada de R$ 13 milhões em lucros a serem pagos até 2028. Mas espere: a saída durou pouco. Em março de 2026, ele retornou ao comando da firma. A justificativa oficial da empresa? Apenas uma "reorganização corporativa do grupo".
Justificativas e o silêncio do STF
Quando confrontada sobre a contratação de Kevin Marques, a Consult Inteligência Tributária foi vaga. A empresa afirmou que os pagamentos referiam-se a "serviços técnicos e assessoria jurídica" prestados entre 2024 e 2025. Em notas posteriores, a firma tentou detalhar a natureza do trabalho, mencionando auditorias fiscais, implementação de sistemas de processamento de dados para fins tributários e migração de dados para as empresas dos grupos citados.
A defesa de Kevin de Carvalho Marques manteve a linha de que tudo foi legal. Segundo seus representantes, os valores são frutos de sua atividade profissional legítima na área de direito tributário. Por outro lado, o ministro Kássio Nunes Marques optou pelo silêncio e declinou qualquer comentário quando procurado por jornalistas. A história veio a público graças a uma investigação detalhada dos repórteres Vinícius Valfré, Aguirre Talento e Levy Teles, do jornal Estadão, que tiveram acesso aos documentos do COAF.
Por que isso importa e quais as implicações?
Para quem acompanha a política brasileira, o caso não é apenas sobre números, mas sobre a aparência de conflito de interesses. Quando empresas que frequentemente possuem processos ou interesses em tribunais superiores contratam firmas ligadas a parentes de ministros, cria-se o que juristas chamam de "risco reputacional". A questão central não é se a advocacia é legal — ela é —, mas por que uma empresa com faturamento declarado quase nulo recebeu R$ 18 milhões para, então, repassar fundos a um filho de ministro.
Se as transações forem consideradas "incompatíveis com a capacidade financeira", como sugere o COAF, a investigação pode migrar de uma análise ética para uma esfera criminal, investigando a natureza real desses repasses. O uso de empresas de fachada ou "intermediárias" para circular recursos é uma técnica comum em esquemas de lavagem de dinheiro, embora nada tenha sido formalmente provado até agora.
Perguntas Frequentes
Qual a soma total transferida pelas empresas para a consultoria?
No total, foram transferidos R$ 18 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025. A JBS foi a maior contribuinte com R$ 11,3 milhões, enquanto o Master Bank transferiu R$ 6,6 milhões para a Consult Inteligência Tributária.
Quanto o filho do ministro Kássio Nunes Marques recebeu?
Kevin de Carvalho Marques recebeu R$ 281.630,00 através de 11 transferências identificadas pelo COAF. O dinheiro foi depositado em seu escritório de advocacia, do qual ele é o único proprietário.
Por que o COAF considerou as transações suspeitas?
O órgão identificou que a Consult Inteligência Tributária declarou apenas R$ 25,5 mil em receita, mas recebeu R$ 18 milhões. Essa enorme diferença torna a movimentação "incompatível com a capacidade financeira" da firma, sugerindo a circulação informal de recursos.
Qual a ligação entre o fundador da consultoria e o ministro?
Francisco Craveiro de Carvalho Junior, fundador da empresa, é contador e empresário de Teresina, Piauí, que é a mesma cidade natal do ministro Kássio Nunes Marques, estabelecendo um vínculo geográfico e regional entre as partes.
Qual a defesa apresentada pelo advogado Kevin Marques?
A representação legal de Kevin afirma que todos os pagamentos foram lawful (legais) e decorreram de suas atividades profissionais legítimas na área de direito tributário, prestando serviços técnicos para a consultoria.